Na tarde desta segunda-feira (31) o blog conversou com Erica Thawany Adelino Leal (28 anos, foto acima). Ela é a primeira transsexual d...

Primeira transsexual de Santa Cruz a conseguir mudar o nome em todos os seus documentos

segunda-feira, julho 31, 2017 Marcelo Santa Cruz 0 Comentários


Na tarde desta segunda-feira (31) o blog conversou com Erica Thawany Adelino Leal (28 anos, foto acima). Ela é a primeira transsexual do município e uma das primeiras da região a conseguir, depois de anos na Justiça, a ter seu nome social mudado para nome oficial em todos os seus documentos pessoais, inclusive com a alteração na sua Certidão de Nascimento.
Erica é a pioneira em Santa Cruz quanto a esse tipo de luta, já que grande parte da sociedade ainda vê, com preconceito, a situação enfrentada pelos transexuais em seu dia a dia. 

Confira agora a nova entrevista:
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Blog – Quando foi que começou essa sua batalha judicial?
Erica – Começou quando eu entrei com uma denúncia no “Disque 100”, onde tive acolhimento de um psicólogo e de um advogado, ao qual entrou com uma ação por homofobia. A advogada, conhecendo meu dia a dia, tinha feito um mutirão para entrar com uma batalha judicial para troca de nome e me incluiu nessa lista, fez o pedido e entrou com essa ação judicial, em 2015.

Blog – Como foi o transcorrer de todo esse processo?
Erica – É muito difícil chegar onde consegui e espero que outras transexuais em Santa Cruz, que precisam ter seu nome reconhecido nos seus documentos, se incentivem. A minha audiência foi em março de 2015 e vim ter o meu registro (somente) agora, em 12 de julho. O decorrer de todo o processo foi de três anos e dois meses. Tem que se ter muita paciência, muita força de vontade e o mais difícil foi esperar.
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Blog – Quando você deu entrada nesse pedido para tirar todos esses documentos?
Erica – Assim que eu tive o registro em mãos, que (o cartório) da cidade em que eu nasci enviou para o Fórum de Santa Cruz, procurei a assistente social, que me ajudou e me encaminhou para uma advogada, que me orientou. Sobre isso, não tive tanta dificuldade, mas era algo novo para as pessoas quando eu chegava para fazer meu Título (de Eleitor e outros documentos). Tive que explicar tudo… Que estava com o desfecho do processo em mãos, a Certidão de Nascimento; mas aí eu tinha que explicar tudo, que se tratava de uma transexual… Por se tratar de um fato novo, falavam que o sistema poderia dar erro (…). A dificuldade era essa, mas não das pessoas (…). Foi até rápido. Já estou com minha Identidade, CPF, Título e na próxima segunda, já estou fazendo a minha Carteira de Trabalho.
Blog – O que esses documentos representam para você?
Erica – Representam o futuro. Algo novo; que não vou chegar a algum lugar e ter que me explicar. Que vou oferecer meus documentos e onde as pessoas vão me reconhecer. Isso causava um constrangimento tanto para mim quanto para as pessoas que pegavam os documentos antigos, porque eles viam uma mulher e o nome masculino. Eu acredito que isso vai acabar, que não vou sofrer mais constrangimentos.
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Blog – Ainda se existe um preconceito com a questão do transexual e mais ainda por conta de você ter chegado a um grau que poucas pessoas como você chegaram. Como é lidar com isso?
Erica – Eu acredito que posso estar ajudando (a acabar com o preconceito). Eu talvez poderia nem me mostrar, nem aparecer como eu passo despercebida pelos lugares onde frequento; poderia até me esconder da sociedade, mas a gente não tem que ter vergonha. Tenho que vir e mostrar para incentivar outras pessoas a fazer o mesmo. Temos que lutar por nossos direitos e sempre fui assim. Nunca aguentei uma discriminação, nem comigo e nem com outras pessoas que estejam do meu lado. Sou uma pessoa que acredita que o mundo pode melhorar com um ajudando o outro. Minha psicóloga me perguntou se, quando eu fizesse a cirurgia (para mudança de sexo) se eu iria me esconder, viver para sociedade como mulher; não dizer a ninguém sobre minha luta, meu dia a dia. Não quero isso. Quero informar as pessoas que são transexuais têm que estar no leito da sociedade e esta tem que ter respeito com essas pessoas. Por me achar isso, é por isso que estou aqui incentivando outras pessoas a fazer o mesmo. Temos que lutar pelos nossos direitos; tanto que estou com os documentos em mãos, onde vão acabar todas as demandas, questões e constrangimentos. Eu fui em frente e consegui.
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Blog – Falando da cirurgia, o que falta para que ela aconteça?
Erica – O Hospital das Clínicas (em Recife) onde sou acolhida tem uma portaria, onde pede que a pessoa, sendo acolhida, tem que ter dois anos (de apoio) psicológico. Lá, eles oferecem tratamento hormonal, troca de próteses, algumas cirurgias simples e outras como a mudança de sexo. Vou completar, em 19 deste mês, dois anos nesse hospital. Acredito que, como dito lá, a pessoa já sai do tratamento psicológico e passa pelo médico. A saúde estando bem, é marcada a cirurgia. Não se diz a data ou o mês, mas se antecipa os exames. Está mais perto do que longe (…) e me sinto outra pessoa devido ao atendimento que o hospital oferece.

Blog – Concretizando esse passo ou até antes disso, mas já entrando em uma questão pessoal. Como está a vida da Erica? Pretende adotar filhos? Como você pretende formar esse vínculo familiar para o futuro?
Erica – Hoje estou casada e filhos… Agora não penso; não mais. As coisas e o país estão muito difíceis. No meu caso, as coisas estão se terminando, mas quero dar um tempo. Meu casamento está bom, pretendo me casar oficialmente no civil e, quanto a minha família, tudo está perfeito.
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Blog – Para quem não conhece ou para aqueles que te acompanharam em todo esse processo, ainda rola o preconceito quanto ao que você está fazendo?
Erica – Pessoas que tem costume de tratar transexual com preconceito, depois que conhece, que convive… Geralmente eu não sofro preconceito aqui em Santa Cruz pelo fato de eu passar muito despercebida, eu acredito nisso. Não que não tenha muito preconceito, pois se tem e muito; mas não sofro esse abuso, esse preconceito por eu passar despercebida, mas outras transexuais sofrem. Não sei como é o ser humano, pois na cabeça deles, a transexual tem que ser como eles querem. Quando se vê uma que não tem condição, que não tem suas próteses, por não se parecer com mulher, sofrem mais preconceito.
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Blog – Quando você fala “despercebida”, tem a ver com a parte estética; pelo fato de você não ter praticamente feições masculinas?
Erica – Eu falo mesmo neste fato porque tem outras transexuais aqui em Santa Cruz que não foram contempladas… Eu nasci assim, pequena… Com as mãos pequenas, com a minha voz. Eu comecei a tomar hormônios faz oito, nove meses. Para mudar nosso corpo, (normalmente) dura uns três meses para quem é transexual, mas no meu caso, o medicamento é mais fraquinho e demora bastante, mas não é por isso que vou me esconder, nem que eu dizer que não sou uma transexual. Sou com orgulho e quero que outras vejam minha história ou que não tenham inveja, mas sim quero incentivar as pessoas a lutarem por seus direitos e não passar por discriminação.

Blog – Para finalizarmos: Qual a mensagem que você deixa para a população quanto a esse seu lema, que é uma bandeira polêmica já que lida com muitos paradigmas na sociedade como religioso, estético, jurídico…
Erica – É acreditar, ter força. Muitas pessoas acreditaram em mim e me deram força para chegar onde estou hoje. Eu tive muito apoio de pessoas importantes da minha vida desde o primeiro seminário (LGBT) que participei em Santa Cruz e, daí em diante, fui “metendo a cara” e conquistando o que eu conquistei hoje. Tenho muito o que agradecer a Gilson Julião, a Iana Paula, a Clarissa Carvalho, a minha assistente social Raquel e a minha família que me apoiou. O que importa é a gente acreditar e lutar.

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